Profissionais realizados, crianças saudáveis


A satisfação com o emprego faz parte da vida? Ou ir trabalhar é um sacrifício diário? E que pai nunca se sentiu culpado por não poder ir às atividades dos filhos? Quando há mudanças de última hora nas agendas profissionais ou é preciso ir a um cliente, é normal que haja uma preocupação sobre como afeta as crianças. Um estudo publicado na Harvard Business Review conclui que as respostas a estas questões são importantes quer para os profissionais como para os seus filhos.
No artigo “How our careers affect our children”, Stewart D. Friedman – professor da Wharton School of Business da Universidade da Pensilvânia, EUA, e diretor do Projeto de Integração Trabalho/Família da Wharton – analisa como a forma como o trabalho dos pais afeta a vida das crianças e argumenta que crianças de pais satisfeitos com o seu emprego tendem a demonstrar menos problemas comportamentais. O mesmo se passa quando as mães têm autonomia e controlo sobre o seu emprego.
“Vale a pena um novo olhar sobre alguns dos resultados sobre como as vidas emocionais das crianças – os acionistas invisíveis no trabalho – são afetadas pelas carreiras dos seus pais”, escreve no artigo. “As conclusões ajudam a explicar como as crianças são negativamente afetadas por os seus pais serem digitalmente distraídos [fenómeno conhecido como ‘technoference’] e pelos efeitos nocivos do stresse no trabalho sobre a vida familiar”, acrescenta.
A investigação foi para além das questões do tempo, estando também atenta à experiência pessoal do trabalho: valores parentais sobre a importância do trabalho e da família, a interferência psicológica do trabalho na vida familiar (se pensamos no trabalho quando estamos em casa com a família), o envolvimento emocional na carreira e o controlo/autonomia no emprego.
De acordo com o estudo de Friedman, todos estes aspetos das carreiras dos pais estão correlacionados com o grau no qual as crianças apresentam problemas de comportamento. A comparação com as melhores práticas de desenvolvimento permitiu as seguintes observações:

  • A saúde emocional das crianças é mais elevada quando os pais acreditam que a família deve vir primeiro, independentemente do tempo que estão a trabalhar. As crianças estão melhor quando os pais encaram o trabalho como uma fonte de desafios, criatividade e prazer, qualquer que seja o tempo despendido. E as crianças estão melhor quando há uma disponibilidade física dos pais para elas.
  • Ao mesmo tempo é provável que as crianças demonstrem mais problemas de comportamento se os pais estiverem demasiado envolvidos a nível psicológico nas suas carreiras, quer trabalhem muitas ou poucas horas. E a interferência cognitiva do emprego no tempo de família e relaxamento – isto é, a disponibilidade psicológica, ou a presença, dos pais (muitas vezes absortos nos seus dispositivos móveis) – está também ligado às crianças com problemas comportamentais ou emocionais. Por outro lado, quando os pais estão realizados no emprego, os filhos têm tendência para menos problemas comportamentais.
  • Por outro lado, para as mães, ter autoridade e capacidade de decisão no emprego está associado a crianças com maior saúde mental. Para além disso, as mães usarem tempo para si – a relaxar e a cuidar de si próprias – e não tanto com trabalho doméstico está associado a resultados positivos para as crianças. Não é apenas uma questão de as mães estarem em casa e não a trabalhar, é o que fazem quando estão em casa com o seu tempo sem estar a trabalhar.

Os papéis tradicionais para os pais e mães estão a mudar, mas as mulheres ainda carregam o fardo psicológico das responsabilidades parentais. O estudo revela que usar tempo para tratarem de si mesmos em vez de do trabalho doméstico adicional fortalece a capacidade das mães para tomarem conta das crianças. E os pais estão mais bem apetrechados para darem às suas crianças experiências saudáveis quando estão psicologicamente presentes com elas e com o seu sentido de competência e bem-estar promovido pelo seu trabalho.
As boas notícias desta investigação é que as características da vida profissional dos pais podem, até certo ponto, serem controladas e mudadas. O estudo surpreendeu os seus autores ao mostrar que o tempo usado pelos pais a trabalhar ou a cuidar das crianças – variáveis, mas difíceis de controlar, à luz das condições económicas e da indústria – não influencia a saúde mental das crianças. Por isso, se tivermos em conta como as carreiras afetam a saúde mental das crianças, podemos focarmo-nos na forma como valorizamos a carreira e experimentamos com formas criativas para estarmos disponíveis, física e psicologicamente para as crianças, não necessariamente em mais horas com elas. Tempo de qualidade e equilíbrio trabalho/família fazem a diferença.