Nunca é tarde para uma carreira de sucesso

Hoje em dia há uma obsessão com o sucesso rápido, seja nas notas e exames escolares, na entrada nas melhores universidades ou conseguir o primeiro emprego nas organizações mais cobiçadas. Mas o sucesso precoce é a exceção e a forma como este é avaliado, em especial nos jovens, coloca uma pressão que, muitas vezes, tem tendência a fomentar a ansiedade e a depressão. Com uma agravante: o desenvolvimento precoce não é um requisito para uma vida de concretização e realização.

E muitas vezes essa concretização e realização poderá surgir numa fase tardia da vida profissional, em que, por exemplo, muitas pessoas, depois de carreiras, decidem enveredar por desafios e funções de âmbito e responsabilidade social, numa decisão que se traduz num sucesso “inconvencional”.

Talentos e paixões

Isto porque o facto é que o nosso crescimento e maturidade têm ritmos diferentes e todos temos múltiplos picos cognitivos ao longo das nossas vidas. Os talentos e paixões podem sobressair num espetro muito alargado de circunstâncias e revelar-se em diferentes fases.


Concretização e realização poderá surgir numa fase tardia da vida profissional

A nível cognitivo, a última parte do cérebro a desenvolver-se é a responsável pelas funções complexas de planeamento e organização, resolução de problemas, memória, atenção e inibição. O temo usado pelos psicólogos para este tipo de maturidade neurológica é função executiva, que nada tem a ver com o QI, potencial ou talento. É pura e simplesmente a capacidade de olhar o futuro e planear, de relacionar as ações e possíveis consequências, ver as probabilidades de risco e recompensa.

E uma função executiva madura não implica o fim do percurso cognitivo. Segundo um estudo recente, a velocidade no processamento de informação surge entre os 18 e 19 e a memória de curto prazo melhorava aos 25 anos, estabilizando durante uma década. A capacidade de avaliar padrões complexos, incluindo as emoções de outros, aparecia muito mais tarde, quando os participantes tinham entre 40 ou 50 anos. Desenvolvimento precoce não é requisito para realização.

Inteligências

Estes resultados validam a investigação que sustenta que há dois tipos de inteligência: “fluída” – capacidade de argumentar e resolver problemas, independentemente do conhecimento anterior – e “cristalizada” – capacidade de usar skills, conhecimento, know-how e experiência, que melhora com a idade. 

Numa época pautada pela aceleração exponencial da tecnologia, por exemplo, na área do software, o código favorece os jovens e “fluídos”. Mas gerir projetos e negócios pode já obrigar aos skills de um perfil “cristalizado”.

E a criatividade e inovação? A expetativa inicial é que seja dos jovens, com a sua exuberância e ideias frescas. Mas o facto é que a idade média dos cientistas que investigam temas com potencial para prémio Nobel é 39 anos e 47 anos têm, em média, os candidatos a patentes. O rendimento criativo melhora com a idade.

Independentemente do domínio da tecnologia e da pressão para o sucesso precoce, a maturidade, o conhecimento, o know-how continuam a ser decisivos. E com o aumento da esperança média de vida as carreiras prolongam-se. Uma sociedade saudável precisa que todas as suas pessoas reconheçam que se podem desenvolver e voltar a desenvolver, crescer e ter sucesso seja em que fase da vida for.