Carreiras à medida da transformação digital


 
À medida que a inteligência artificial se torna cada vez mais útil e disseminada, os colaboradores ficam cada vez mais ansiosos com a forma como a nova era da automação pode afetar as suas perspetivas de carreira.
Um estudo recente do Pew Research revelou que em várias economias avançadas e emergentes, a maioria dos trabalhadores tem a expetativa que no prazo de 50 anos os computadores façam o atual trabalho dos humanos. A ansiedade dos colaboradores em relação aos efeitos da automação e da inteligência artificial no mercado de trabalho é real.  As estimativas em relação à quantidade de trabalhadores que serão afetados pela automação variam entre 9% e 47%. Alguns dos empregos vão mudar de forma drástica, outros vão simplesmente desparecer.
Assim sendo, se a automação torna o mercado de trabalho um pequeno “jogo das cadeiras”, há alguma forma de saber se uma pessoa ainda tem emprego quando a música parar? A educação e a formação podem tornar uma carreira mais adaptada à transformação digital?
Uma carreira adaptada às mudanças atuais e futuras tem menos que ver do que escolher um trabalho seguro e mais com uma atualização constante das competências ao longo da carreira. E este adaptação e atualização assenta em três pilares:

  • Capacidade técnica: perceber como funcionam as máquinas e interagir com elas. À medida que tanto a robótica como a inteligência artificial se tornam cada vez mais capazes, as máquinas vão começar a entrar em funções que antes eram monopólio dos humanos. Muitos colaboradores irão trabalhar com as máquinas, e provavelmente conseguirão ser muito mais produtivos. Formação em princípios de código e engenharia serão ferramentas para maior sucesso neste tipo de ambiente.
  • Disciplina da informação: navegar no mar de dados que são gerados por estas máquinas. Os colaboradores vão precisar de literacia sobre dados para ler e analisar a informação quase ilimitada que vai orientando cada vez mais tudo, desde as principais decisões de negócio às decisões de compra de ações.
  • Disciplina humana: “aquilo que os humanos conseguem fazer que no futuro previsível as máquinas não sejam capazes de imitar”. Aqui inclui-se a criatividade, agilidade cultural, empatia e a capacidade de tirar a informação de um contexto e aplicá-lo a um outro. E em ternos de educação e formação, significa menos ênfase na sala de aula e mais no ensino aplicado.

Um outro aspeto da transformação digital é a rápida desatualização das skills. “Há uma geração, uma competência durava quase 16 anos, e esse era o modelo para uma carreira. Hoje em dia, é de quatro anos e meio e está a diminuir”, resume Indranil Roy, o responsável do Future of Work Centre of Excellence, criado pela Deloitte.
O rápido ritmo de mudança não é necessariamente uma coisa negativa, mas implica que os trabalhos de casa serão para sempre. Também significa que as universidades terão de mudar o seu foco para a formação ao longo da vida e formação de trabalhadores a meio da carreira. Estamos constantemente a tornarmo-nos obsoletos. E de certa forma há uma enorme oportunidade para nos reeducarmos e atualizarmos. Quem for capaz de o fazer, vai prosperar.
As skills menos tangíveis estão a tornar-se cada vez mais importantes para muitos colaboradores e muitas empresas usam inteligência artificial para skills como analytics e freelancers com competências técnicas profundas. As pessoas que conseguem empregos são as que têm “life skills” e valores que se alinham de forma próxima com a organização. E a maioria destas competências vem de um ambiente exterior ao ensino académico.
Os locais de emprego serão partilhados entre robôs e humanos – por exemplo já há sistemas de Inteligência Artificial que estão presentes e participam em reuniões. É importante perceber a nossa relação em mutação com as máquinas no local de trabalho e adaptar a educação e formação em consonância.
Talvez mais do que tudo, os humanos precisam de se focar nas competências que são mais difíceis de replicar pela inteligência artificial. Os humanos são criativos, inovadores, empreendedores. Capazes de interagir com outras pessoas, trabalhar com elas, ser empáticos. Capazes de ser culturalmente ágeis, trabalhar com pessoas de diferentes formações. Capazes de ser globais. A tecnologia está sempre a mudar as nossas expetativas e todos os dias s máquinas quebram barreiras. Por isso, é insuficiente ajudar os colaboradores a sobreviver ao “jogo das cadeiras” no mercado laboral. Também terão de sobreviver num mundo no qual as cadeiras estão em constante movimento.
Paulo Marcelino, Managing Partner