Atenção à confiança em excesso

No livro “Pensar, Depressa e Devagar”, Daniel Kahneman escreveu que o excesso de confiança é “a mais significativa de todas as predisposições cognitivas” uma vez que está sempre presente e tem muitas consequências negativas. A confiança em excesso tem sido implicada num grande número de erros na tomada de decisão, desde diagnósticos médicos a maus investimentos.

Perceber a origem do excesso de confiança e desenvolver técnicas eficazes para melhorar a calibração – conhecimento rigoroso – tem sido objeto de muita investigação. Um trabalho académico desenvolveu uma nova técnica para diminuir o excesso de confiança, um problema que afeta muitas pessoas e organizações.  O fenómeno do excesso de confiança é muitas vezes atribuído à confirmação de predisposições, à tendência sistemática em procurar ou privilegiar evidências para uma hipótese que preferem em relação às alternativas.

Quando são os gestores da empresa que têm excesso de confiança o risco aumenta. Neste caso, o número de pessoas que são afetadas é ainda maior, uma vez que é uma questão de toda a empresa, da cultura organizacional e dos colaboradores. Os gestores que confiam em excesso no mercado e no potencial da empresa deixam de ter em atenção possíveis melhorias e definição de novos objetivos.

A nível dos colaboradores, a autoconfiança ajuda um profissional a desenvolver-se e pessoas confiantes são indispensáveis em qualquer organização para enfrentar adversidades e ajudar à motivação. Mas ultrapassar alguns limites pode causar problemas entre os colegas e até mesmo com clientes, fornecedores, sócios e parceiros.

Geralmente, é uma ampla bagagem em determinada atividade que origina o excesso de confiança. São vários os exemplos de como a confiança em excesso poderá ser prejudicial para colaboradores e organização. Desde logo a falta de atenção aos pormenores. Quando o profissional está com confiança a mais para desempenhar determinada função, acaba por perder a concentração e o foco na atividade, tal como o sentido crítico. A consequência são pormenores que ficam sem a atenção devida e consequente comprometimento da qualidade do trabalho.

Um profissional excessivamente confiante pode passar a imagem de ser arrogante, o que impacta de forma negativa nas relações com os colegas de trabalho e alimenta um mau clima organizacional dando origem a quebras na motivação, produtividade e resultados. E não esquecer que o excesso de confiança pode ser prejudicial numa negociação, uma vez que poderá dar a sensação de autoridade e fazer com que o cliente se retraia e crie uma barreira à aproximação e empatia.

O excesso de confiança faz também com que o colaborador ache que tem o domínio pleno da função que desempenha, o que lhe retira oportunidade para melhorar e até acaba por ser prejudicial, uma vez que dispensa a aquisição de novos conhecimentos. A consequência é estagnação, o que diminui a performance e produção de resultados.

Para evitar estas consequências, é fundamental uma autocrítica profissional, de forma a que o colaborador entenda quando a confiança em si própria é exagerada e que permita fazer ajustes que tragam o equilíbrio necessário. Saliente-se ainda que muitas vezes o excesso de confiança mascara os medos e vulnerabilidades de uma pessoa insegura. A gestão do excesso de confiança é vital para o sucesso profissional e organizacional e consegue-se com um equilíbrio, nem sempre fácil, que resulta de um autoconhecimento que permita ao profissional demonstrar conhecimentos, competências, expertises e skills sem exageros, mas também sem falsa modéstia.

Isso não significa submissão ou que o profissional tenha de esconder aquilo em que é melhor ou que o diferencia. Tem é de ser inteligente na utilização e no tempo certo, focando-se em fazer um bom trabalho, em ter uma boa relação com colegas, parceiros e clientes, trabalhando em equipa, com boas ideias e decisões assertivas. Para que o colaborador ou empresa tenha a confiança bem calibrada é preciso que juntamente com esta haja cautela, humildade e atualização. Em resumo o excesso de confiança terá de ser modificado, uma vez que vem acompanhado de imprudência, estagnação, preguiça, protelação e falta de visão crítica.

Qualquer organização que permite excesso de confiança, pode ter a certeza que vai pagar um preço pesado, mais tarde ou mais cedo.

 

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