Negócios com Paixão: Das Tripas Coração

Das Tripas CoraçãoCada zona de Portugal tem a sua história, as suas tradições e, também, a sua gastronomia. E é comum, em viagens que fazemos pelo país, descobrirmos iguarias que sentimos que fazem falta em outras localidades. Tendo a culinária como uma das suas paixões, bem como a sua cidade-Natal, Cristina Rodrigues é a alma por detrás do espaço Das Tripas Coração e traz para Lisboa os doces de Aveiro. Por aqui adoramos doces, e adorámos o conceito por detrás desta marca e, por isso, quisemos conhecer o negócio a fundo.

Conte-nos a história da sua paixão. Como começou este negócio?
Beeeem…. Esta pergunta dava “pano pra mangas”. Cruza-se com muitas histórias. A minha história, a da Cristina, teve vários começos. Um deles, sem dúvida, aconteceu quando fiz Erasmus na faculdade. Comecei a viajar e a sentir que o mundo é sempre um pouco mais à frente e nunca aqui ao lado. Apaixonei-me pela vida e pela diferença. Chamo-me Cristina Rodrigues, tenho 33 anos e sou natural de Ovar – distrito de Aveiro. Vivo em Lisboa há 9 anos, fruto das circunstâncias que me fizeram sair da zona norte em busca de trabalho. Sou Professora e solteira. Vivo com o Francisco Santos, com quem tenho uma relação há 12 anos. Ele é de Albergaria-a-Velha, também distrito de Aveiro e conhecemo-nos em Coimbra, onde estudámos juntos. Temos uma filha com 19 meses, a Margarida, e um cão, com 10 anos, o Catorze. Somos felizes!

Sempre fui dada a lavores. Cozinha, bricolages e decorações. Provavelmente, foram também as viagens que contribuíram para isso tal como o ter saído de casa, ainda gaiata, para ir estudar Educação Física na faculdade. Durante muito tempo, fui mestra nestas pequenas habilidades; que o digam familiares e amigos, que em alguma parede ou prateleira, têm algum artefacto feito por mim. Claro que agora, com bebés exigentes e cães ainda mais exigentes, já não há tanto tempo!
E assim cheguei a Lisboa, mas sempre com o norte no coração. Isto só podia acabar em fazer das tripas coração!

Há já 5 anos que pensava trazer os produtos da minha cidade para Lisboa mas isto de ser professora (e na altura, contratada) é também sinónimo de situação profissional instável e precária, pelo que dificilmente me podia aventurar a tomar grandes decisões. Mas o bichinho estava lá. E a intuição. A Tripa de Aveiro – doce desconhecido por estas bandas – a Bolacha Americana e a doçaria conventual da região centro, como complemento, parecia-me um negócio com potencial e passível de exploração na Grande Lisboa. Há um ano atrás, quando a Margarida ainda só tinha 7 meses surgiu, do nada, um espaço disponível que ia ao encontro daquilo que o Francisco e eu idealizamos. E a minha vontade de arriscar era tanta, que por menos um metro quadrado de chão, também me teria atirado. E claro que, nestes apertos que são as grandes decisões, sempre ajuda pensar que, se para se ser professora, tem de se ficar a quilómetros de casa, há que arriscar outros rumos, pois nada justifica privar uma filha da companhia do pai ou da mãe. Não foi para isso que tive filhos.

E foi assim, entre incertezas e certezas, que chateei o Francisco para me ajudar na concretização deste sonho. E conseguimos. Foram três meses de trabalho intenso. Mas valeu a pena. Com a ajuda de profissionais como os das empresas Mão Livre, Paulo Mainha Fotografia e Plano Consultores, e de dois grandes amigos, também eles profissionais – Carlos Simão (eletricidade e iluminação) e Sofia Pinheiro (designer) – um espaço triste e sem graça ganhou vida, estilo e emoção. Quando entramos, saltam à vista as prateleiras e vitrinas recheadas de coisas boas com os seus aromas adocicados. E ainda se fazem notar as opções veganas, da empresa The Love Food. Mas é quando nos sentamos a comer, que percebemos o encanto do lugar: cheira a tripa, senhores! É cheiro da nossa terra e, com ela, chegam-nos as memórias que nos trazem alegria!

Mas sabíamos que ia ser difícil, muito difícil! Como encontrar um nome apelativo que tenha “Tripa” pelo meio? Das Tripas Coração foi a primeira e única opção. E o nome não podia ser outro, pois só ele diz o esforço que foi necessário para que o negócio vingasse, e só ele mostra a forma como trabalhamos (e apresentamos) o nosso produto! E é assim que se começa a construir uma casa: quando o nome é o lugar na memória de quem lá vai! E nós, por cá, passo a passo, também vamos andando. Até que conseguimos o registo da marca e do logotipo. Vitória! Passaram-se 9 meses desde que abrimos o negócio. As atualizações e o investimento são constantes, mas com peso e medida, como também mandam os tempos. O crescimento, esse, tem sido lento, mas saudável. Sentimos que temos de crescer ainda mais. Mas para isso, temos de inventar novas soluções. Mas porque fazemos das tripas, coração, sabemos que vamos crescer!

Qual o seu maior objetivo, no seu dia-a-dia, com os clientes?
Acima de tudo, queremos passar ao cliente emoções fortes e mostrar-lhe que é o cliente mais especial do mundo, porque é o nosso. Queremos que o nosso cliente, ao fim do dia, quando chega a casa e pousa a cabeça e as preocupações no sofá, se lembre de nós. Que se lembre daquele momento quase fugidio, mas que teve algo de peculiar. Queremos que ele se sinta excecional pois foi a ele que aconteceu a conversa saudosa, o sorriso aberto ou a tripa mais doce. E fomos nós que fizemos essa diferença. Por isso, vale a pena voltar.
Penso que o nosso sucesso passa por aqui: pela qualidade do produto, pelo atendimento ímpar e pelo tom modesto e simpático do local. E este é o caminho. E o desafio. Somos uma casa pequenina, que fica no meio da cidade, na Estefânia, logo ali ao virar da esquina. É uma zona que está a ser reabilitada e que, por isso mesmo, tem também imensas coisas a acontecerem. A vida também começa aqui.

Como transmite a sua paixão à sua equipa?
Só se transmite paixão, se já houver equipa. Mas esta só se mantém se a liderança for eficaz na sua dinamização.
A equipa requer equipamento. E nós, por aqui, vestimos mesmo a rigor e dos pés à cabeça! Responsabilidade, dinamismo, humildade, disponibilidade e criatividade. São os requisitos. E paixão, brio, amor ao que se faz. Até porque, nós somos uma extensão daquilo que fazemos. Não podemos julgar que erguemos alguma bandeira se não formos, nós próprios, os primeiros a identificar-nos com esses ideais.

E depois há que saber ser líder. E liderar é fazer com que os outros assumam o projeto como seu. Nós arriscamo-nos, lutamos e sofremos por aquilo que é nosso. Por isso mesmo, há que elogiar, ouvir, partilhar, incentivar, responsabilizar.
Nada na vida se consegue sozinho. Somos, ou não somos uma equipa! Gosto de lhes dizer que fazem um bom trabalho e digo-o, muitas vezes, com pequenos gestos que fazem toda a diferença: chamando-os a participar nas discussões, definindo objetivos, ouvindo sugestões. E é por aqui que se transmite paixão e se alimenta o gosto por aquilo que se faz. A confiança nasce neste limbo: quanto sentimos a responsabilidade do que é ser fundamental para o negócio poder vingar.

Como lida com os erros/fracasso?
Agora, de forma positiva! Um amigo meu, há umas semanas, dizia-me isto: “A vida é demasiado importante para ser levada a sério!”. Na altura, falávamos de filhos. Quando eles surgem, acabamos sempre por lá ir parar! Mas a conversa não morreu aí. Comecei a pensar em tudo o que nos rodeia e na forma como desvalorizamos o erro!
E então refiz a frase: “O erro é demasiado importante para não ser levado a sério!”. É a própria evolução que no-lo ensina. Sem erro jamais existiria Sucesso! Se descurarmos um erro no nosso trabalho, numa relação, na abordagem do outro, nos mais diversos contextos, podemos estar a caminhar para uma via de sentido único que se chama fracasso! Temos de aprender a aprender com o erro, pois muitas vezes, é quando os eliminamos, que conquistamos o sucesso.
Como tal, é porque erro, que cada vez mais exijo fazer bem! sei que erro e que esses erros são chamadas de atenção para fazer mais e melhor! Isto aplica-se a tudo na vida. Se tudo aquilo que fizermos for feito com paixão, então tudo será mais fácil e genuíno! Façam simples e bem! E acima de tudo, façam aquilo que vos dá prazer e realiza!

Neste negócio, o erro anda de mãos dadas com a crítica. E as críticas dos nossos clientes são o melhor feedback que existe, para saber o que temos de melhorar. Para não errar. Quando um negócio começa pequeno e se quer grande, há que avaliar os riscos, os timings e as oportunidades. É aí que nos superamos a nós mesmos. Temos, também, de sondar, ler, pesquisar, apreciar, ver e recolher muita informação até tomarmos A DECISÃO, que nos pode levar ao SUCESSO ou ao FRACASSO!

Qual o conselho que dá a alguém que ainda não encontrou a sua paixão?
É preciso arriscar. E também procurar. A vida acontece ali ao lado e cabe-nos, a nós, fazermo-nos notar.
Claro que não podemos escolher muito daquilo que nos acontece. E também nem sempre temos a possibilidade de ter vivências que nos proporcionem um conhecimento suficientemente alargado, por forma a tomarmos decisões acertadas em termos de futuro. E essas experiências passam, sem dúvida, pelo conhecimento do outro!

Só nos podemos descobrir a nós, descobrindo os outros. Sejam eles países, coisas ou sabores. É no contacto com essa diferença que descobrimos o que somos e queremos ser. Mas aí está. Como dizia acima, cabe-nos, a nós, fazermo-nos notar. Quando não fazemos nada, quando não saímos do “ninho”, acabamos por não saber sequer que existe algo que pode ser o bilhete para a nossa felicidade.

Se tens sonhos, luta por eles! Se tens filhos e queres ajudá-los a descobrir aquilo de que realmente gostam, passa tempo de qualidade com eles. Quando deres uma prenda, oferece conhecimento, experiências e livros!
Ouve com atenção os mais velhos e absorve o que te mostram e dizem! Envolve-te nos acontecimentos que a tua aldeia, cidade, distrito e país têm para te oferecer. Viaja! Pode ser mesmo ir para fora, cá dentro. Mas viaja tanto quanto puderes! E quando sentires um nervoso miudinho na barriga, acompanhado de sorrisos e bem-estar, é porque descobriste algo.
Se é ou não a tua paixão, só o tempo e a tua vontade o dirão. Mas se te sentes feliz, é já um começo. Vale a pena lutar por momentos assim!

Visite a página de Facebook de Das Tripas Coração e, depois de ver algumas das imagens dos pratos e do espaço, aventure-se nesta aventura gastronómica pelas iguarias de Aveiro. Conhece algum Negócio com Paixão? Partilhe-o connosco! 

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